Reino e Reconciliação

  • A carta de Paulo a Filemon é a mais breve e pessoal de todas as suas cartas. Sua datação depende muito de qual prisão Paulo estava quando a escreveu. Há duas possibilidades: (1) Paulo estava em Efésios; (2) Paulo estava em Roma. Como esse não é o assunto desse texto, não iremos focar nisso. Vamos então datar essa carta por volta de 60 d.C.


    Resumidamente, e seguindo o que chamamos de perspectiva tradicional ( há pelo menos 5 perspectivas sobre isso ), essa carta nos conta a história de um escravo chamado Onésimo que provavelmente fugiu de seu senhor, chamado Filemon ( o versículo 18 provavelmente sugere que ele também o roubou ).
    Nessa fuga, Onésimo se encontra com Paulo. Como foi dito acima, há muitas interpretações e possibilidades sobre esse encontro. Acredito que Onésimo já conhecia Paulo por causa do seu senhor Filemon e fugiu até aonde ele estava.
    O fato é que Onésimo se encontra com o prisioneiro Paulo em sua prisão ( provavelmenteem sua prisão domiciliar, na qual ele poderia receber pessoas ). Paulo torna-se amigo de Onésimo e com isso o leva à fé em Cristo, o discipulando e tendo-o como seu ajudante e parceiro.


    Do outro lado da história temos Filemon, ao qual é endereçada a carta. Filemom era o
    senhor do escravo Onésimo. Paulo apresenta Filemom em termos entusiásticos como um estimado colaborador e um modelo de amor e de fé em Jesus. O amor e a fé de Filemom também transbordara para todos os fiéis a quem ele sempre animara. O apóstolo Paulo provavelmente desempenhou um papel importante na conversão de Filemom porque Paulo comentou, de passagem, que Filemom devia sua própria vida ao apóstolo. Filemom provavelmente era rico, pois abrigava a igreja em Colossos, e era capaz de providenciar um quarto de hóspede para Paulo (veja o vers. 22).


    Entre esses dois personagens temos o apóstolo Paulo. Paulo estava preso nessa época e não sabia ao certo o que aconteceria com ele. A prisão não era usada como uma punição em si, mas um lugar onde a pessoa ficava contida até que fosse decidido o que seria feito com ela. A prisão não era um orgulho para ninguém. No entanto, Paulo parece gloriar-se de estar ali.

    Escravidão no Mundo Antigo

    Antes de continuarmos, precisamos entender algo muito importante. Nós, do mundo ocidental, temos um entendimento sobre escravidão que está associado ao que conhecemos da historia recente dos séculos 18 e 19, especialmente o comércio de escravos.
    Para nós, escravidão está ligada com afiliaçao etnica, com raça e cor. Mas no mundo antigo não era bem assim. Qualquer um poderia ser um escravo. Bastava perder uma batalha e o lado vencedor, após matar aqueles que queriam, escravizava o restante. Obviamente a escravidão não era algo bom e os escravos às vezes eram duramente
    maltratados. As escravas, em particular, eram com frequência sujeitas aos desejos sexuais de seus senhores. No entanto, deve se destacar que escravos que desempenhavam boas funções e tinham senhores sensatos viviam frequentemente melhor do que muitas pessoas libertas e muitos se tornavam escravos por opção ( para quitar uma dívida, por exemplo ).


    Às vezes pensamos que o Novo Testamento deveria trazer um mandamento explícito para acabar com essa instituição horrível. Mas mesmo aqueles que tinham idéias reformadoras naquela época sabiam que nao era tão simples assim. Se de repente houvessem milhares de pessoas soltas, mas desempregadas, isso seria perigoso para elas e para os outros. O que vemos Paulo fazer, como alguns pensadores de sua época, mas de forma distinta, é colocar uma “bomba-relógio” nessa instituição como um todo, ao insistir que as pessoas fossem tratadas completamente como seres humanos com responsabilidades, direitos, obrigações, etc.

    Uma Outra Carta

    Alguns estudiosos, como N. T. Wright, fazem um paralelo muito interessante da carta de Paulo a Filemon com uma carta antiga de Plinio a seu amigo Sabiniano. Ela é bem parecida com a carta de Paulo a Filemon, mas também é bem diferente. Não sabemos o nome da pessoa sobre quem Plínio escreve. Ele provavelmente era um jovem ex-escravo, que havia sido liberto.


    Se alguém havia sido escravo, mas seu senhor o libertasse ou ele conseguisse comprar a sua liberdade, o que ele faria? Muitos homens libertos não eram mais escravos em tese, mas continuavam totalmente dependentes daquele que havia sido seu senhor. Entao, tinham que continuar vivendo como antes e mesmo que agora fossem pagos pra isso, seu salário era como um salário de escravidão. Nessa carta, esse jovem fugiu e foi ao amigo de alto escalão de Sabiniano, Plínio.


    Plínio, Sabiniano e o jovem liberto, fazem parte de uma hierarquia social. Plínio está perto do topo do alto escalão; Sabiniano estaria no que chamamos de classe média-alta; e o jovem liberto está no base da escala social. E tanto no começo da carta, como no final, eles permanecem nessa mesma ordem. Plínio dá ordens e instruções à Sabiniano. Ele pede para Sabiniano deixar o jovem em paz. Plínio já deu uma boa bronca no jovem e não o defenderá mais. Sabiniano está disposto a agradar Plínio por causa de sua posição social e Plínio sabe muito bem que ele fará o que foi pedido.


    Mas nessa situação, Plínio está basicamente apelando para o que será bom para Sabiniano e não para o amor. Ele cita uma frase intrigante: “A misericórdia é ainda mais louvável quando a ira é justificável.” Ou seja, ele não está preocupado em lidar com a ira. É como se Plínio dissesse: “Sabiniano, você está irado. Sem problemas. Mas por que não ser misericordioso também? Você parecerá um homem ainda mais virtuoso.” Ou seja, ele está apelando para o orgulho de Sabiniano. Apesar de no final, Plínio dizer: “Se acontecer de novo, já o avisei [ ao jovem ] que você não deixará barato, Sabiniano. Não se torture, ficar irado seria uma tortura para alguém como você.”


    N. T. Wright diz que o que vemos aqui é um mundo sem perturbaçoes. Todos permanecem onde estão. É assim que se ajeita as coisas para que o sistema social continue intacto: “O imperador está no topo, os escravos lá na base e os três, nos seus lugares intermediários, ficam onde estavam e tudo continuará com a aparência de que está bem.” Não há rupturas. Tudo vai continuar como sempre foi.

    A carta de Paulo

    De maneira diferente, Paulo traz uma alternativa radical ao sistema hierárquico de relações sociais.
    No versículo 6, Paulo usa uma palavra muito cara para o Cristianismo, a palavra “comunhão” Comunhão ( gr. κοινωνία; koinonia ) é importante para Paulo.
    Infelizmente para muitos cristãos, comunhão se resume a festas, churrascos e encontros dos irmáos da igreja. Mas embora isso faça parte da nossa vida de amizade cristã, koinonia tem um sentido mais famíliar, de irmandade. Alguns até traduziram koinonia como “união comum”, já que Paulo fala de nossa participação em Cristo.
    É um sentido em que pertencemos uns aos outros. Uma parceria. Porque em Cristo somos todos um!
    E essa koinonia deve ter uma ação completa.


    Por meio dessa oração Paulo está estabelecendo a base para o apelo que ele fará. Paulo sabe que Filemon é um bom homem que fez coisas boas. Mas Paulo lança a ele um novo desafio nessa carta.

    • Paulo fala do relacionamento dele com Onésimo ( v.10 )
    • E depois fala do relacionamento dele com Filemon ( v. 17 e 19 ).

    Como diz N. T. Wright:

    “Paulo está esticando um braço e colocando-o em volta de Onésimo e esticando o outro braço e colocando-o em volta de Filemon.
    Ele está reunindo os dois em sua própria pessoa. Onde Paulo aprendeu esse truque?
    Parece que vem do que ele diz em 2Co 5: o ministério da reconciliação!”

    O Poder Reconciliador do Reino


    No ãmago dessa passagem em 2 Coríntios 5, Paulo diz algo que explica por que há um novo mundo despontando nesta pequena carta a Filemon. Ele diz:

    “De modo que, de agora em diante, a ninguém mais consideramos do ponto de vista
    humano. Ainda que antes tenhamos considerado a Cristo dessa forma, agora já não o
    consideramos assim. Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!”

    ( 2 Coríntios 5:16 )


    Em outras palavras, Paulo está dizendo: “Filemon junte-se a mim e abandone os velhos caminhos. Os caminhos de Plínio e Sabiniano e a visão de mundo deles. Perceba que Deus está fazendo algo novo. É algo que envolve reconciliação e tem os contornos da cruz.


    O que Deus fez em Cristo pelo mundo, Deus está fazendo em Paulo por Filemon e
    Onésimo. Paulo não está passando a mão na cabeça de Onésimo. Ele deve se arrepender e pedir perdão E Filemon receberá um pedido para fazer algo quase impensável no mundo antigo: aceitar de volta um escravo foragido em sua casa.
    E não apenas aceitá-lo de volta como um “escravo desonrado”, e sim como um irmão
    amado no Senhor.


    Paulo está querendo virar o mundo de cabeça pra baixo!


    Poderíamos esperar que Paulo estivesse lutando para que Onésimo fosse liberto. Não, o principal é RECONCILIAÇÃO. O resto é negociável a partir disso. Mas a principal questão é a reconciliação!
    O apelo principal vem no versículo 17:

    “Assim, se você me considera companheiro ( a palavra κοινωνός; koinonos, novamente ) na fé, receba-o como se estivesse recebendo a mim.”

    ( Fm 1:17 )


    É como se Paulo dissesse: “Filemon quando olhar para Onésimo, olhe como se fosse através de mim. Assim como quando Deus olha para nós, Ele nos olha através de Cristo. Essa reconciliação é possível. Cristo fez algo que possibilita tudo isso acontecer!

    Um Novo Mundo


    A forma como Paulo está lidando com essa situação comunica que algo aconteceu no mundo. As coisas não são mais as mesmas. Há uma “novidade de vida”, termo importante para a teologia apocalíptica de Paulo. O mundo não é mais o mesmo depois do evento-Cristo. Nas palavras de N. T. Wright:

    “Não é algo estrondoso, cheio de alarde. É algo que acontece casa por casa à medida que a reconciliação ocorre. À medida que os vizinhos da rua ou de cidades vizinhas se perguntam: “Você ouviu falar do que aconteceu? Isso é um novo jeito de agir. Jamais pensamos em viver assim.”


    Foi assim é claro que o cristianismo ss espalhou pelo mundo. Pois as pessoas, estavam vivendo de modo diferente, estavam cuidando uns dos outros, perdoando uns aos outros. Jesus morre por nós para que a humanidade fosse reconciliada com Deus, mas também para que houvesse reconciliação entre nós mesmos. Isso é estar em Cristo. Isso é viver pelos propósitos dEle.
    Jesus é Aquele que traz reconciliação.
    Ele reconcilia pais e filhos, irmãos brigados, casais separados, inimigos declarados.
    Ele nos reconcilia com o Pai!
    É disso que a carta a Filemon trata. Ela nos leva ao âmago do Evangelho de Paulo e ao novo mundo que a mensagem de Cristo criou naquele tempo e que pode criar hoje!


    Nós estamos celebrando o tempo do Advento ( preparação para o Natal ), que culmina com o nascimento de Cristo.
    Quando Cristo nasceu, um anjo do Senhor disse aos pastores no campo que um novo
    tempo de paz havia chegado.
    Há ali uma retórica anti-imperial.
    O Império Romano anunciava a famosa “Pax Romana“. Um discurso de domínio camuflado por uma falsa paz.
    Cristo vem para trazer a verdadeira paz. A paz do homem para com Deus e dos homens para com os homens. É Cristo, e não César, que traz a verdadeira paz. É Cristo, e não César, que traz a reconciliação.
    Em Cristo toda reconciliação é possível!
    A carta a Filemon é o ministério da reconciliação em prática!

    Referências

    Introdução ao Novo Testamento – Andreas J. Köstenberger, L. Scott Kellum e Charles L. Quarles
    Introdução ao Novo Testamento – Raymond E. Brown
    Introdução de Atos a Apocalipse – Craig L. Blomberg
    Paulo e Sua Carta a Filemon – N. T. Wright ( curso )
    God’s Relational Presence – J. Scott Duvall e J. Daniel Hays


    Escrito por: Rike Oliveira

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