O silêncio poderá ser tudo em meio à dor

  • O livro de Jó é conhecido por todo sofrimento e provação que ele passou. Perdendo seus bens e filhos, ele e sua esposa iniciam uma jornada de lamento e dúvidas. Sendo o primeiro livro da Bíblia em linha cronológica, estudos apontam que Jó tenha vivido no tempo de Terá, pai de Abraão (Gênesis 46). Este personagem tem muito a nos ensinar sobre dependência em Deus em meio ao muito e em meio ao nada; estando alegre e também triste; conseguindo enxergar tudo com clareza ou estando confuso em pensamentos. O livro nos fala sobre fidelidade, persistência, poder de Deus, e também sobre algo pouco explorado, relacionamento. Boa parte do livro relata as falas de Jó e seus amigos, estes foram visitá-lo como um gesto de amizade. Eles não eram alvos da dor e sofrimento, mas compõem uma parcela importante desta história.

    O capítulo 2 de Jó nos descreve acerca de três homens que ao saberem das tormentas que acometiam seu amigo, resolveram se encontrar para prestarem solidariedade, saindo cada um de uma região diferente vão ao encontro de Jó. Eles sofreram, amaram e respeitaram Jó, permaneceram em silêncio pela dor do amigo durante sete dias. Foram condolentes em sua atitude de visitar e demonstrar que se importam com o sofrimento de seu amigo. Até que Jó quebra o silêncio e inicia seu discurso com lamento profundo mediante o seu estado. Após isso, seus amigos também quebram o silêncio e se manifestam, o primeiro deles, Elifaz, provavelmente por ser mais velho e sábio inicia sua fala.

    Elifaz começa sua fala de maneira encorajadora, deixando claro que Jó não poderia desistir, tentando de alguma forma levanta-lo para que ele buscasse a Deus e não desistisse, entretanto, seu discurso começa ser direcionado para um tipo de correção e arrependimento que Jó deveria ter. Aponta que não haveria problema algum voltar-se para Deus clamando por purificação, que Deus realizaria um milagre mediante arrependimento. Após Jó tentar se defender, seu outro amigo, Bildade, toma a fala e agora sendo mais rígido que Elifaz reitera o que este diz. Bildade declara que se Jó voltasse para o Deus todo poderoso sendo puro e íntegro ele o restabeleceria.

    Diante disso, Jó estando ainda mais angustiado continua declarando que não carrega pecados e demonstra seu lamento, logo vem Zofar e prossegue reverberando a posição de que os ímpios e pecadores pereceriam. Jó continua firme na sua posição de que não havia cometido nada que implicasse num pecado, chegando a zombar de seus amigos. Ainda em suas respostas, fala na maior parte do tempo direcionando-se a Deus para de alguma forma compreender o que estava acontecendo em sua vida. Os amigos de Jó agiram em solidariedade e amor ao decidirem ir visitá-lo, compartilhar da dor e querer consolá-lo de alguma forma, porém feriram a Jó ainda mais com suas palavras de acusação, mesmo que estas fizesse sentido em seus pensamentos.

    Nós, como corpo de Cristo, somos chamados a sermos família espiritual, a chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram, orar pelas petições e súplicas dos nossos irmãos e amigos, somos convocados a amar. Diante desta história de Jó e seus amigos, resta-nos um questionamento sobre como respondemos a este chamado ao consolo, mediante ao sofrimento de amigos e irmãos, estaríamos posicionando-nos de forma cordial, além de amorosa? Em certas situações, acusações podem ser atraentes e até mesmo intuitivas devido a nossa humanidade caída, busca por respostas, justificativas, falas supostamente espirituais podem fazer parte de nossas atitudes, porém, em muitos casos, servirão apenas para ferir ainda mais a pessoa que sofre. Deus nos convida a confortar em amor e sabedoria.

    Há uma necessidade de orarmos por discernimento, há tempo certo para todas as coisas e o silêncio como consequência de estar, como foram os primeiros sete dias de Jó com seus amigos, poderá ser tudo que alguém em sofrimento precisará de nós. Por vezes, não teremos as palavras certas, e nos constrangemos por isso, quando, na verdade, o que importa mesmo é estarmos ali, semeando compaixão, orando junto, estando presente. Sabendo que Deus, em sua infinita misericórdia, tem o controle de todas as coisas em suas mãos e que não deixa de cuidar e zelar pelos seus, revelando seu poder em meio aos sofrimentos da vida.


    Escrito por: Maria Eduarda Silva

    Referência: Comentário Bíblico Beacon

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